A soja brasileira deixou de ser apenas um produto de exportação em grão, e Wander Aguilera Almeida, empresário que trabalha com intermediação de compra e venda de grãos, comenta que a industrialização da oleaginosa dentro do país passou a influenciar de forma mais direta os preços e as negociações. O avanço do biodiesel está no centro dessa transformação.
A cada tonelada de soja esmagada, é gerado farelo, utilizado na alimentação animal, e óleo, cada vez mais destinado à produção de biocombustível. Conforme informações da ANP, o consumo de óleo de soja pelo setor de biodiesel alcançou 7,9 milhões de toneladas em 2025, ano em que a mistura obrigatória ao diesel foi elevada para 15%, também conhecida como B15. Para 2026, a Abiove projetou um volume recorde de 61 milhões de toneladas de soja.
A alta demanda de óleo altera o equilíbrio entre exportação e processamento de grãos. Ao longo deste artigo, entenda como o biodiesel influencia o mercado da soja, o que está em jogo na evolução das misturas obrigatórias e o que isso significa para o produtor.
A demanda por biodiesel e os novos caminhos para a soja
O biodiesel é produzido principalmente a partir de óleo de soja, que responde pela maior parte da matéria-prima do setor no Brasil. Quanto maior a mistura obrigatória ao diesel, maior a necessidade de esmagamento da oleaginosa.
A Lei do Combustível do Futuro estabeleceu um cronograma para aumentar a mistura de combustível, que pode chegar a 20% até 2030. A elevação para 16%, prevista para março de 2026, não foi implementada e voltou ao debate ao longo do ano.
Os preços demonstram essa sensibilidade. Adiamentos nas metas de mistura enfraquecem as cotações do óleo de soja, enquanto sinais de aumento as sustentam. Ao analisar essa dinâmica, Wander Aguilera Almeida frisa que as decisões de política energética passaram a integrar o conjunto de fatores que influenciam o mercado de grãos, ao lado de safra, câmbio e demanda externa.
Os efeitos do esmagamento em diferentes pontos da cadeia
O avanço da industrialização da soja produz efeitos que vão além das usinas de biodiesel. Para quem produz e negocia o grão, alguns desses impactos já aparecem com clareza:
- Nova referência de preço: a demanda das esmagadoras instaladas no interior cria uma alternativa à paridade de exportação, especialmente em regiões produtoras distantes dos portos, onde o custo do frete pesa sobre o valor do grão.
- Margens de esmagamento: a rentabilidade das indústrias depende da soma do valor do óleo e do farelo. Quando a demanda por óleo cresce, as margens melhoram e as empresas tendem a disputar mais o grão no mercado interno.
- Mais farelo no mercado: o aumento do esmagamento eleva a oferta de farelo de soja, o que pode baratear a ração animal e influenciar os custos da pecuária e da produção de carnes.
- Diversificação das matérias-primas: sebo bovino, óleo de milho das usinas de etanol e óleos residuais ganham espaço, reduzindo a dependência exclusiva da soja e conectando o biodiesel a outras cadeias do agronegócio.

Essa rede de conexões demonstra a integração da soja em um sistema energético e alimentício mais vasto. Em sua análise, Wander Aguilera Almeida, responsável pelo acompanhamento das safras de grãos e da evolução das cotações, destaca que a análise conjunta de óleo, farelo e grão contribui para compreender as razões pelas quais os preços internos nem sempre acompanham a Bolsa de Chicago.
Oportunidades e riscos para o produtor
Para o produtor, a expansão do esmagamento representa um aumento no número de compradores e uma diversificação das opções de venda. Em geral, indústrias instaladas em proximidade a lavouras costumam apresentar preços competitivos e condições logísticas favoráveis. Esse fato se torna ainda mais relevante em períodos de alta nos corredores de exportação, quando os custos de frete tendem a aumentar.
A dependência de políticas públicas é incerta. Mudanças nos cronogramas podem alterar a demanda e, consequentemente, a disposição das indústrias em pagar pelo grão. Além disso, Wander Aguilera Almeida reforça a importância de acompanhar o cenário regulatório da energia antes de definir estratégias de comercialização de médio prazo.
Além da concorrência com outros produtos, o biodiesel, para o qual o óleo de soja é usado, pode vir a ser usado como combustível de aviação, aumentando a pressão por esmagamento e consolidando a industrialização.
A soja como produto de energia e alimento
O biodiesel impulsionou a valorização da soja brasileira, transformando-a em um ativo que transita entre os mercados de alimentos e energia. Em meio às operações do agronegócio, essa mudança emerge nas negociações por meio de novos compradores, novas referências de preço e maior influência das políticas energéticas.
Para o produtor, compreender a interação entre óleo, farelo e grão contribui para a tomada de decisão entre exportação e venda à indústria, considerando aspectos como preço, frete e prazos de pagamento. Acompanhar o calendário das misturas obrigatórias também auxilia na antecipação de mudanças na disposição das indústrias em adquirir o grão.
Ao conectar produtores e compradores, Wander Aguilera Almeida contribui para a ampliação das alternativas de comercialização, auxiliando o produtor a tomar a melhor decisão em um mercado em que cada decisão sobre combustíveis pode repercutir no valor do grão colhido no campo.