A escuta qualificada define, muitas vezes, se uma vítima de violência doméstica volta a pedir ajuda ou desiste no meio do caminho. Afinal, o momento em que essa pessoa relata pela primeira vez o que viveu carrega peso decisivo, pois molda a confiança que ela deposita no sistema de proteção.
Assim sendo, o tom dessa primeira conversa influencia diretamente decisões futuras, incluindo a de romper o silêncio de forma definitiva e buscar apoio novamente quando necessário, conforme frisa Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade. Pensando nisso, a seguir, detalharemos como estruturar esse contato inicial e por que ele determina os próximos passos da vítima.
Por que a escuta no primeiro atendimento pesa tanto quanto todo o resto?
A resposta está na forma como o cérebro humano processa situações de vulnerabilidade extrema. Tendo isso em vista, uma pessoa que acabou de sofrer uma violência doméstica costuma chegar ao primeiro atendimento em estado de alerta, com dificuldade de organizar cronologicamente o relato. Logo, se o ouvinte interrompe, duvida ou apressa a fala, essa vítima associa o pedido de ajuda a mais uma experiência de desconforto, o que a afasta de procurar apoio novamente no futuro.
De acordo com Taiza Tosatt Eleoterio, a escuta qualificada não significa apenas ouvir em silêncio, mas sim criar um ambiente onde a vítima sinta que pode parar, retomar e errar na narrativa sem ser julgada por isso. Essa segurança inicial funciona como base para todo o acompanhamento posterior, incluindo decisões jurídicas, psicológicas e de proteção física que virão depois.
O que acontece quando a vítima não é ouvida da forma correta?
Quando a escuta falha logo no início, o dano ultrapassa o desconforto momentâneo daquele atendimento específico. A vítima pode reinterpretar sua própria experiência como menos grave do que realmente é, principalmente se perceber descrédito na reação de quem a atende.
Como profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, Taiza Tosatt Eleoterio expressa que esse efeito retarda denúncias, adia rupturas necessárias e, em muitos casos, faz a pessoa voltar para o mesmo ciclo de violência por não enxergar outra saída viável naquele momento da vida. Ademais, alguns comportamentos profissionais tendem a comprometer esse primeiro contato antes mesmo que a conversa avance de fato. Entre os mais recorrentes estão:
- Interromper o relato para acelerar o atendimento;
- Fazer perguntas que sugerem culpa da vítima pela situação vivida;
- Demonstrar impaciência corporal ou verbal durante a fala;
- Tratar o caso como rotina administrativa, sem adaptar a abordagem ao momento.
Evitar essas posturas não exige recursos adicionais, apenas preparo e sensibilidade da equipe responsável pelo primeiro contato com a vítima. Dessa maneira, pequenos ajustes na abordagem inicial mudam significativamente a disposição da vítima em continuar o processo de proteção.
Como o silêncio da vítima também comunica algo relevante?
Nem toda vítima chega pronta para relatar detalhes com clareza. Pausas, hesitação e respostas curtas fazem parte do processo e não indicam falta de veracidade no relato apresentado. Portanto, um profissional treinado ou qualquer outro ouvinte cuidadoso reconhece esses sinais e ajusta o ritmo da conversa, em vez de forçar respostas imediatas que a pessoa ainda não consegue formular.
Como ressalta Taiza Tosatt Eleoterio, respeitar esse tempo evita que a vítima sinta que precisa performar sofrimento para ser levada a sério pela equipe. Essa validação silenciosa, presente na postura e na paciência de quem escuta, muitas vezes pesa mais do que qualquer pergunta feita durante o primeiro contato.
O primeiro contato como ponto de virada na busca por proteção
Em conclusão, a forma como uma vítima é recebida na primeira conversa define, em boa medida, se ela voltará a buscar ajuda ou se abandonará o processo por conta própria. Investir na qualidade dessa escuta representa, portanto, uma medida concreta de prevenção, e não apenas um gesto isolado de acolhimento pontual. Isto posto, transformar esse primeiro momento em uma experiência segura é um dos caminhos mais eficazes para reduzir o isolamento e silenciamento das vítimas.